Um lusodescendente que foi inspirado a seguir a carreira científica após uma demonstração durante uma aula de língua portuguesa em Londres voltou esta semana a uma escola primária para, ele próprio, tentar influenciar mais crianças.
Tiago Alves tinha 15 anos quando assistiu a uma das primeiras oficinas promovidas pela ‘Native Scientists’ na capital britânica em 2013, onde a organização foi fundada no mesmo ano.
Hoje, com 28 anos, está a realizar um doutoramento na universidade Imperial College London em Física de Altas Energias, com um interesse específico em física de neutrinos, partículas microscópicas sobre as quais se lembra ler num livro infantil.
“Eu sempre gostei da ciência, sempre gostei de olhar para as estrelas. Quando ia para Portugal ter com os meus avós, numa vila perto de Viseu, onde não havia luz nenhuma, uma das coisas que eu gostava muito de fazer durante o verão, a passar as férias, era olhar para as estrelas”, contou à agência Lusa, na escola primária St. Paul’s CE.
Apercebendo-se da desvantagem linguística perante os colegas britânicos, durante os estudos aplicou-se nas ciências exatas, como a matemática, a química e a física.
Na altura de escolher o curso universitário, pediu conselhos a Tatiana Correia, física cofundadora da Native Scientists que tinha falado sobre a sua profissão poucos anos antes na aula de português frequentada por Tiago Alves.
“Eu tinha mais jeito para a Química, mas interessava-me sempre mais a Física. Eu estava a pensar se calhar ir para Medicina. Eu tinha muitas opções. E, à volta dessas opções, a Native Scientists ajudou-me”, admitiu.
Para o evento de quarta-feira em Londres, Tiago Alves levou alguns objetos usados nos trabalhos experimentais e tentou explicar em termos simples portugueses a sua investigação para tentar analisar o comportamento de neutrinos, que pode ajudar a compreender a origem e estrutura do universo.
Na aula, realizada para assinalar o Dia Mundial da Língua Portuguesa celebrado em 05 de maio, estavam 20 crianças entre os 8 e 15 anos, que interagiam fazendo perguntas.
Na mesma oficina da Native Scientists participaram a biomédica Beatriz Morais, a médica e investigadora clínica Joana Teixeira e a advogada Sandra Carvalho, outra lusodescendente que também frequentou aulas de português em Londres.
Para Pedro Marques, que foi professor de Tiago Alves e de Sandra Carvalho, é importante mostrar a língua portuguesa como “uma língua de futuro”, que é utilizada por muita gente em diversas áreas e para muitas atividades diferentes.
“Os alunos vêm para as aulas incentivados pelos pais. Há o fator da ligação à língua portuguesa da família, mas estas aulas também servem para mostrar que o português não é só isso, é uma língua em que as pessoas podem raciocinar, podem planificar, planear, criar estratégia, criar conhecimento, ciência”, salientou.
A Native Scientists foi criada por duas cientistas portuguesas para fazer comunicação científica por investigadores na mesma língua de crianças filhas de imigrantes.
Além de promover o multilinguismo, o objetivo é expandir os horizontes infantis e estimular a progressão para o ensino superior.
Entretanto, a organização sem fins lucrativos expandiu o programa Mesma Comunidade Migrante para outras línguas, como o italiano, espanhol, grego, árabe ou igbo (idioma nigeriano), para mais de uma dezena de países, como Alemanha, Áustria, Dinamarca, Holanda, Irlanda, Noruega ou Suíça.
A Native Scientists afirma contar atualmente com uma rede de mais de 3.000 cientistas e estima ter chegado a milhares de crianças, muitas através da parceria com o Instituto Camões no estrangeiro.
“Esta colaboração tem um impacto muito grande”, afirmou a Coordenadora do Ensino Português no Reino Unido, Cátia Verguete, que espera que o percurso feito por Tiago Alves possa repetir-se.
“Há aqui um objetivo duplo, que é consciencializar para a importância do conhecimento científico, mas também para a importância da educação em geral, e do valor da educação. E as nossas aulas também têm esse objetivo”, disse à Lusa.
Verguete descreve as aulas de português no estrangeiro “como uma experiência educativa completa”, em que “os alunos não aprendem somente português, eles aprendem em português sobre uma diversidade de áreas e aprendem a gostar de aprender”.