Como o Pai Natal ocupou o lugar do Menino Jesus na festa natalícia

 |  Marita Moreno Ferreira  |  ,

Durante séculos, o centro simbólico do Natal cristão foi o Menino Jesus, figura que representava a encarnação divina e que, em muitas tradições europeias, era também quem “trazia” os presentes às crianças. No entanto, ao longo do tempo, outra personagem emergiu, transformando-se num dos ícones mais reconhecidos do mundo ocidental: o Pai Natal.
A ascensão desta figura não foi repentina. É o resultado de um processo histórico, cultural e comercial que atravessa séculos — e que começa com um santo do século IV.

São Nicolau

São Nicolau, o bispo generoso

A figura moderna do Pai Natal deriva diretamente de São Nicolau, bispo de Mira (na atual Turquia), nascido por volta de 270. Conhecido pela sua generosidade, especialmente para com crianças e pobres, São Nicolau tornou-se uma das figuras mais populares da cristandade medieval.
Lendas associadas a ele incluem ofertas secretas deixadas durante a noite, a proteção de crianças e a distribuição de esmolas e presentes. É desta tradição que surgem nomes como Sinterklaas (Holanda), Santa Claus (EUA) e Père Noël (França).

Da devoção ao folclore: a transformação nos países do Norte

Nos países germânicos e nórdicos, a figura de São Nicolau misturou-se com tradições pagãs de Inverno que incluem espíritos benevolentes que visitavam as casas, rituais de dádiva associados ao solstício e figuras como o “Velho do Inverno”.
Esta fusão criou um personagem mais secular, mais ligado à estação fria e menos à liturgia cristã.

A reinvenção americana

A transformação decisiva ocorre nos Estados Unidos, entre os séculos XVIII e XIX, quando comunidades holandesas levam consigo a tradição do Sinterklaas. Escritores e ilustradores começam a reinventar a figura.
Em 1823, o poema A Visit from St. Nicholas (“Twas the Night Before Christmas”) fixa elementos como o trenó, as renas e a entrega noturna de presentes. Em 1863, o ilustrador Thomas Nast cria a imagem do “bom velhinho” rechonchudo, barbudo e vestido de vermelho, que se tornaria canónica.
A partir daí, o Pai Natal deixa de ser apenas um santo e torna-se um símbolo cultural laico, associado à infância, à magia e à generosidade.

Illustração de longas filas de Natal

O século XX e a força do comércio

No início do século XX, o Pai Natal já era amplamente reconhecido, mas foi a partir da década de 1930 que se consolidou como ícone global. A publicidade — especialmente a norte‑americana — adotou a figura, reforçando o traje vermelho, o sorriso afável e a associação ao consumo natalício.
A partir daí o Pai Natal perdeu a sua conotação religiosa e tornou-se o ícone ocidental da festividade, promovendo hábitos de consumo agressivo.

Menino Jesus: a perda do protagonismo

A substituição não foi igual em todo o lado. Em muitos países, o Menino Jesus continua a ser a figura central da fé natalícia. Mas culturalmente, sobretudo no Ocidente urbano e secularizado, o Pai Natal tornou-se dominante por três razões.
A universalidade: o Pai Natal é uma figura acessível a crentes e não crentes. O Menino Jesus pertence a um contexto estritamente cristão.
A simplicidade da narrativa infantil,pois a ideia de um velhinho que viaja pelo mundo distribuindo presentes é mais fácil de adaptar a histórias, livros, filmes e publicidade.
A força da cultura popular, que na literatura, no cinema, na música e na publicidade do século o transformaram num símbolo global, enquanto o Menino Jesus permaneceu ligado ao ritual religioso.

Duas tradições que coexistem

Hoje, o Pai Natal ocupa o centro da celebração popular do Natal, enquanto o Menino Jesus permanece no centro da celebração religiosa. Não houve exatamente uma “substituição”, mas sim uma dupla narrativa: o Natal religioso, centrado no nascimento de Cristo, e oNatal cultural, centrado no Pai Natal e na troca de presentes.
Convivem simultaneamente em muitas famílias e sociedades, mas a segunda tornou-se dominante na esfera pública e mediática.

Invenção da Mãe Natal

Durante séculos, o Natal foi dominado pela figura masculina do Pai Natal. Mas, a partir do século XIX, surgiu uma companheira que nunca existira no folclore europeu: a Mãe Natal,que não tem raízes na tradição cristã nem pagã. Foi uma invenção literária norte‑americana.
Em 1849 James Rees publica o conto A Christmas Legend, onde um casal de idosos é confundido com o Pai e a Mãe Natal. Katharine Lee Bates escreve, em 1889 o poema Goody Santa Claus on a Sleigh Ride, que dá protagonismo à esposa do Pai Natal e consolida a sua presença na cultura popular.
A partir daí, a Mãe Natal passou a aparecer em contos, rádio, cinema e televisão, quase sempre como figura secundária, mas com crescente relevância.

Kurt Russel e Goldie Hawn como Pai Natal e Mãe Natal

Os grandes intérpretes do Pai Natal

O cinema e a televisão transformaram o Pai Natal num ícone global. Entre os actores que vestiram o fato vermelho, destacam‑se Edmund Gwenn — Milagre na Rua 34 (1947), Richard Attenborough — Milagre na Rua 34 (1994), Tim Allen — The Santa Clause (1994 e sequelas), Kurt RussellThe Christmas Chronicles (2018, 2020), Paul Giamatti — Fred Claus (2007), Jim Broadbent — Get Santa (2014), Tom Hanks — The Polar Express (2004, voz e captura de movimento), Edward Asner — Elf (2003), Alec Baldwin — Rise of the Guardians (voz, 2012), Mel Gibson — Fatman (2020) e David Harbour — Violent Night (2022). Cada intérprete reflete uma faceta diferente, do Pai Natal clássico e benevolente ao mais satírico, sombrio ou até de ação.

Actrizes que deram vida à Mãe Natal

Embora menos presente, a Mãe Natal também ganhou rostos marcantes como Angela Lansbury — Mrs. Santa Claus (1996), Goldie Hawn — The Christmas Chronicles 2 (2020), Shirley Booth — The Year Without a Santa Claus (voz, 1974), Judy Cornwell — Santa Claus: The Movie (1985) e Mira Sorvino — Finding Mrs. Claus (2012).
Estas interpretações ajudaram a consolidar a Mãe Natal como símbolo de apoio, ternura e parceria, equilibrando a narrativa natalícia. Nada demasiado igualitário, para não beliscar a figura patriacal do seu consorte, não vá o Diabo tecê-las e criar ideias demasiado progressistas.

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