A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, tem vindo a reforçar que a guerra no Médio Oriente — desencadeada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão e pela subsequente perturbação na região — representa um choque energético profundo, com efeitos que poderão prolongar‑se durante anos e condicionar tanto a inflação como o crescimento económico na zona euro.
Segundo Lagarde, “já se causou demasiado dano” e não existe forma de restabelecer rapidamente a produção de energia perdida, uma vez que o encerramento parcial do Estreito de Ormuz e os ataques a infraestruturas energéticas criaram rupturas que não se resolvem “no prazo de meses”.
A presidente do BCE sublinha que este choque energético está a gerar riscos em alta para a inflação, sobretudo através da escalada dos preços do petróleo e do gás.
As projeções mais recentes do BCE apontam para uma inflação média de 2,6% em 2026, podendo atingir 3,5% num cenário adverso ou mesmo 4,4% se as perturbações no abastecimento energético forem severas e prolongadas.
Efeitos colaterais
Estes cenários refletem não apenas o impacte direto da energia, mas também os efeitos de segunda ordem, que podem propagar‑se a salários, serviços e preços subjacentes.
Lagarde tem insistido que o BCE não ficará “paralisado pela hesitação” caso o choque energético se transforme numa pressão inflacionista generalizada. A instituição dispõe de um “leque graduado de opções”, embora só actue quando tiver informação suficiente sobre a magnitude e persistência do choque.
Se este for limitado e temporário, a abordagem clássica é não reagir; se for significativo, mas não demasiado persistente, poderá justificar‑se um ajustamento moderado da política monetária. Em qualquer caso, o compromisso de manter a inflação em 2% a médio prazo permanece “incondicional”.
Situação não é como a da guerra na Ucrânia
Apesar da gravidade da situação, Lagarde tem procurado distinguir o atual contexto do choque de 2022, quando a invasão russa da Ucrânia apanhou a economia europeia com inflação já elevada e forte procura pós‑pandemia.
Hoje, argumenta, a zona euro encontra‑se “melhor preparada”, com uma inflação mais próxima da meta e políticas orçamentais menos expansionistas.
Ainda assim, a presidente do BCE alerta que uma guerra prolongada poderá elevar de forma mais sustentada os preços da energia, pressionando o rendimento real das famílias, a confiança das empresas e o crescimento económico — que o BCE já classifica como “moderado” para 2026.
Europa vulnerável à dependência energética
A dimensão geopolítica é central nesta avaliação. O Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte crítica do petróleo mundial, tem registado uma queda drástica no número de petroleiros, aumentando os custos globais de transporte e agravando a volatilidade dos mercados energéticos.
O BCE reconhece que, embora o comércio internacional de mercadorias não esteja totalmente paralisado, a vulnerabilidade europeia ao preço da energia continua elevada, sobretudo devido aos níveis historicamente baixos de armazenamento de gás.
Lagarde alerta ainda para os limites da política fiscal europeia. Ao contrário de 2022, quando os Estados‑membros mobilizaram cerca de 2,5% do PIB para amortecer o choque energético, hoje existe menos margem orçamental para respostas de grande escala.
A presidente do BCE teme que orçamentos nacionais fragilizados possam dificultar a capacidade de resposta coordenada da União Europeia caso o conflito se prolongue.
As declarações de Lagarde convergem numa mensagem clara: a guerra no Médio Oriente representa um choque estrutural, com impacte direto nos preços da energia, na inflação e na estabilidade económica europeia.
O BCE está preparado para agir, mas só o fará com base em dados sólidos e numa leitura precisa da evolução do conflito — um conflito que, segundo a própria, poderá ter efeitos “além do que conseguimos imaginar neste momento”.