Tempestades de inverno sempre existiram. O que muda é a probabilidade de termos episódios mais intensos, mais húmidos e, em alguns casos, mais frequentes. Quando um “comboio de tempestades” atinge um território já saturado de água, cada nova depressão encontra solos encharcados, rios cheios, infraestruturas fragilizadas—e o impacto multiplica‑se.
A ciência do clima é cautelosa: não diz que “a Kristin foi causada pelas alterações climáticas”, mas sim que o aquecimento global aumenta a probabilidade e a severidade de eventos deste tipo.
O aquecimento global — cerca de +1,2 °C em relação à era pré‑industrial (período histórico anterior à Revolução Industrial, iniciada c. 1750-1850), significa mais energia térmica disponível na atmosfera e nos oceanos. Ar mais quente retém mais vapor de água; mais vapor de água significa potencial para precipitação mais intensa.
Os oceanos estão mais quentes e as tempestades mais húmidas. O Atlântico aquecido fornece combustível adicional às depressões extratropicais, que podem assim produzir chuva mais intensa e, em alguns casos, aprofundar‑se mais rapidamente (ciclogénese explosiva).
Há evidências de que o aquecimento do Ártico, mais rápido do que no resto do planeta, está a afetar a corrente de jacto, tornando‑a por vezes mais ondulada ou estacionária, o que favorece bloqueios atmosféricos e “comboios” de sistemas de baixa pressão que seguem trajetórias persistentes sobre as mesmas regiões.
Os primeiros alertas estruturados surgiram nas décadas de 1970–1980. Falamos do Relatório Charney (1979),um painel da Academia Nacional de Ciências dos EUA, que concluiu que duplicar o CO₂ atmosférico aqueceria o planeta em cerca de 1,5–4,5 °C. É um dos primeiros avisos formais de alto nível sobre o risco climático.
Segui-se-lhe a Conferência Mundial sobre o Clima (Genebra, 1979). Apontada frequentemente como a primeira cimeira do clima, reuniu cientistas e decisores para discutir a variabilidade climática e o papel das atividades humanas. Havia sinais suficientes para levar o problema a sério.
Entre 1980 e 1990 o clima entra na agenda política global. Em Villach (1985) e Toronto (1988) conferências científicas e políticas reforçaram o consenso de que o aumento de gases com efeito de estufa era preocupante e que era necessário reduzir as emissões.
É criado em 1988 pela ONU e OMM o IPCC, Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, para avaliar de forma sistemática a ciência do clima. O seu primeiro relatório,em 1990, conclui que o aquecimento global é real e que as emissões humanas são uma causa importante, abrindo caminho à Convenção‑Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), assinada no Rio de Janeiro em 1992.
O Protocolo de Quioto (1997) foi o primeiro acordo internacional com metas vinculativas de redução de emissões para países industrializados. Limitado, mas simbólico.
Relatórios subsequentes do IPCC (1995, 2001, 2007, 2013–14) reforçam a atribuição cada vez mais clara do aquecimento às atividades humanas, alertas sobre eventos extremos, subida do nível do mar, riscos para ecossistemas e sociedades.
No Acordo de Paris (2015), quase todos os países se comprometem a limitar o aquecimento “bem abaixo” de 2 °C, idealmente 1,5 °C, através de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs).
Desde 1979, a curva do conhecimento científico é ascendente e consistente. Mais dados, mais modelos, mais confiança nas conclusões. O que não acompanhou essa curva foi a velocidade da ação política e económica.
O que mudou entretanto foi a precisão científica. Hoje sabemos muito mais sobre como o aquecimento global influencia eventos extremos, desde ondas de calor a tempestades intensas. A ciência de “atribuição” consegue quantificar quanto é que as alterações climáticas aumentam a probabilidade ou intensidade de um evento.
Na escala dos impactos, o que eram projeções para “o fim do século” está a manifestar‑se já: incêndios extremos, cheias recorde, secas prolongadas, degelo acelerado, ondas de calor marinhas.
Quase todos os governos reconhecem o problema, existem metas de neutralidade carbónica, fundos climáticos, planos de adaptação, legislação europeia e nacional.
O que não mudou, ou mudou muito pouco, foi a dependência de combustíveis fósseis. O carvão diminuiu em alguns países, mas o petróleo e o gás continuam centrais na economia global. Subsídios diretos e indiretos aos comnustíveis fósseis persistem em muitos estados.
As emissões globais continuam a subir, apesar de alguma desaceleração em certos anos, e as emissões globais de CO₂ continuam em níveis historicamente elevados. Cada ano de atraso bloqueia mais aquecimento futuro.
A desigualdade de vulnerabilidadeé gritante. Países e comunidades com menos recursos são mais expostos e menos capazes de se adaptar, mesmo quando pouco contribuíram para o problema.
A ciência avançou, os alertas multiplicaram‑se, mas a estrutura económica e energética global mudou devagar demais para travar a escalada de riscos.
Aqui entramos no terreno onde meteorologia, economia, política e cultura se cruzam. E as razões são claras.
A economia fóssil e interesses instalados; as infraestruturas pesadas como oleodutos, refinarias, centrais térmicas, frotas automóveis e cadeias logísticas foram construídas para décadas. Desmantelar ou transformar estes sistemas é caro e politicamente sensível.
Os lobbies e desinformação. Durante anos, grandes empresas fósseis financiaram campanhas para semear dúvidas sobre a ciência do clima, atrasando regulações e confundindo a opinião pública.
A política de curto prazo: ciclos eleitorais versus horizontes climáticos. Os Governos pensam em 4 anos; o clima responde em décadas. Medidas estruturais como reordenamento do território, reforma fiscal verde, descarbonização profunda) têm custos imediatos e benefícios difusos e tardios.
O risco é invisível até ser tarde: investir em prevenção contra cheias, reforço de infraestruturas ou adaptação costeira é politicamente menos “visível” do que inaugurar obras novas. Só depois de uma Kristin é que o tema ganha urgência— e, mesmo assim, por pouco tempo.
A construção em zonas de risco como leitos de cheia ocupados, urbanização desordenada em encostas instáveis, impermeabilização maciça dos solos urbanos. Quando chega um “comboio de tempestades”, o desastre está pré‑programado.
As infraestruturas estão dimensionadas para um clima que já não existe. Sistemas de drenagem, pontes, redes elétricas e de transporte foram concebidos com base em estatísticas históricas que estão ultrapassadas.
Outra tremenda realidade é a normalização do risco. Depois de cada evento extremo, há uma tendência para o “foi excecional”, “não se podia prever”. Mas a ciência tem dito o contrário e que estes eventos são parte de um padrão amplamente estudado e reconhecido.
Entra também em jogo a dissonância cognitiva. Sabemos que o clima está a mudar, mas o quotidiano exige decisões imediatas. Há contas para pagar, empregos, eleições. A ameaça difusa e global perde sempre para o problema concreto e local.
A adaptação é reactiva, não preventiva. Em muitos países, a resposta continua a ser “limpar e reconstruir” depois do desastre, em vez de “recuar, reforçar e replanear” antes.
Quem pode adapta‑se, quem não pode, sofre. Casas melhor isoladas, seguros, obras de protecção costeira, relocalização planeada, tudo isso exige recursos. A falta de adaptação é também um reflexo de desigualdades económicas e políticas.
Créditos Imagem:
© 2022 Direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Segue News. | Prod. Pardais ao Ninho.