O Município de Oeiras vai inaugurar um painel de azulejos de grandesdimensões, criado por Graça Morais, para homenagear os milhares de presos políticos da Prisão de Caxias até ao 25 de Abril de 1974. A obra, com 6 metros de altura por 20 metros de comprimento, será apresentada publicamente a 29 de janeiro, no Palácio Anjos, em Algés, e ficará instalada junto ao Estabelecimento Prisional de Caxias.
Arte e memória
O painel de azulejos afirma-se como um ato de evocação da resistência e da luta pela liberdade, integrando-se no esforço de preservação da memória histórica do Estado Novo e das suas vítimas. A apresentação contará com a presença da artista e do presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais.
A partir de 30 de janeiro, o público poderá ver gratuitamente o desenho final e os esboços da obra no Palácio Anjos, transformado para esta ocasião num espaço de consciência, testemunho e reflexão sobre a repressão política.
A data de instalação definitiva do painel junto ao Estabelecimento Prisional de Caxias será anunciada posteriormente.
A transmontana que vingou nas artes
Bragança tem um Centro de Arte Contemporânea com onome da artista
Na galiza, em 1993
Graça Morais (n. 1948, Vieiro, Trás‑os‑Montes) é uma das mais importantes artistas plásticas portuguesas contemporâneas. A sua obra, profundamente marcada pela memória, identidade, condição humana e raízes transmontanas, atravessa temas como a violência e fragilidade do corpo, a condição feminina, a relação entre tradição e modernidade e a persistência da memória coletiva.
Com uma carreira internacional, expôs em países como França, Espanha, Brasil e Japão. Em Portugal, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, é um dos principais polos de estudo e divulgação da sua obra.
O painel de Caxias insere-se na dimensão ética que caracteriza grande parte do seu trabalho: a arte como lugar de resistência, testemunho e humanidade.
Caxias, lugar de repressão e presos políticos
Corredores da prisão
O forte, em Caxias
A Prisão de Caxias — oficialmente Forte de D. Luís I — foi uma das principais estruturas repressivas do Estado Novo. Localizada no concelho de Oeiras, integrou o sistema prisional político da PIDE/DGS, recebendo milhares de detidos ao longo das décadas de ditadura.
Os relatos de ex-presos e documentos históricos descrevem períodos de isolamentos prolongados, casamatas subterrâneas sem luz nem ventilação, corte de correspondência e visitas, celas disciplinares, assistência médica deficiente e frequentemente prestada por médicos ligados à PIDE, como métodos habituais nas suas instações.
Em 1961, um documento interno do PCP relatava que cerca de 150 camponeses alentejanos foram encerrados nas casamatas de Caxias, em condições desumanas.
Figuras públicas e opositores detidos em Caxias
Entre os muitos presos políticos que passaram por Caxias contam-se militantes do PCP, incluindo quadros clandestinos, opositores democráticos, intelectuais e estudantes, detidos após as grandes vagas repressivas dos anos 50 e 60, e militantes do MRPP, detidos já depois do 25 de Abril, em 1975, quando a prisão voltou a ser usada para encarcerar membros da PIDE/DGS e outros grupos.
Embora a lista completa seja extensa e dispersa por arquivos militares e judiciais, sabe‑se que milhares de presos políticos passaram pelo Forte de Caxias ao longo da ditadura, tornando-o um dos símbolos mais marcantes da repressão do Estado Novo.
Continua a funcionar hoje como Estabelecimento Prisional de Caxias, integrado na rede prisional do Ministério da Justiça. Mantém a sua função como prisão de alta segurança, sendo uma das unidades sob tutela da Direção‑Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP).
Segundo a informação institucional, trata‑se de um estabelecimento destinado ao cumprimento de penas e medidas privativas de liberdade, enquadrado na área territorial do Tribunal de Execução de Penas de Lisboa.
O espaço tem sido ocasionalmente utilizado para cerimónias oficiais e evocativas, sobretudo relacionadas com a memória dos presos políticos e do 25 de Abril, atividades culturais pontuais, como eventos organizados por associações locais como a Confraria dos Enófilos do Vinho de Carcavelos.