Quica Melo
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O presépio

 

Naquela noite, toda a casa cheirava a musgo a pinheiro e a Magia 

– Gija, é amanhã que fazemos o presépio? 

– É Quica. É amanhã! Agora vais para a cama fazer um soninho porque amanhã temos muito que fazer! E deu à menina um beijo com sabor a surpresas e a festas! 

– Acorda Guigui! É hoje! É hoje! 

– Valha-me Nossa Senhora rapariga, ainda só são 6h da manhã. Dorme que ainda é cedo! 

Mas a menina não queria dormir mais. Saiu da cama devagarinho, calçou os chinelos que a Guigui tinha feito com flanela quentinha, vestiu o roupão grosso de inverno e devagarinho foi ao quarto da Gija, mas a porta estava fechada! Se calhar era mesmo muito cedo! 

Foi então em biquinhos de pés para a sala, onde o Bobi dormia debaixo da mesa, com uma orelha arrebitada para qualquer barulhinho estranho! E ali ficou com o cheirinho a musgo e a pinheiro, à espera que a casa acordasse, porque finalmente, já era “Hoje o dia de fazer o presépio”! 

A menina nem se lembrava que era dia de ir à Missa, porque era dia de Nossa Senhora e Dia da Mãe. E era dia de festa! Foi mesmo um almoço de festa e a Guigui fez farófias para sobremesa. Do seu lugar na mesa, onde tinha de se portar muito bem, a menina via o canto do presépio, onde já estava tudo pronto para ser acabado. 

O Pinheirinho estava no canto esticado com os seus braços de bicos à espera. O musgo estava espalhado por todos os sítios, na parte de cima encostado ao pinheiro estava um papel pintado com castanho e verde que parecia mesmo uma serra. E o musgo com a aldeia dos cogumelos estava mesmo à frente, fresquinho e a cheirar a terra, a verde… a serra. Finalmente depois de almoço o avô perguntou : – Então Quica, vamos trabalhar? 

– Sim! Sim! Disse a menina com os grandes olhos a brilhar, antecipando a alegria que se aproximava! Subiram-se as escadas do sótão, e o Avô abriu a porta mágica! 

– Ora vamos lá ver: é esta, esta, esta e esta! Podes levar esta Quica que é levezinha, mas com cuidado, para não a deixares cair! 

A Menina pegou na caixa com muito cuidado e seguiu o Avô até à sala! 

– Posso abrir avô? 

-Vamos abrir tudo com muito cuidado… 

Da primeira saíram belas bolas coloridas e brilhantes que dormiam há um ano, nos seus lençóis de papel de seda! Havia bolas, passarinhos, pinhas, pais natais, bonecas que iam aparecendo no meio da palha grossa que as protegia na caixa. 

– Cuidado Quica! Estas vieram de muito longe e não se partiram. Temos de pegar nelas com muito cuidado porque são muito fininhas… 

E as lindas bolas coloridas iam enfeitando o pinheirinho, que sabendo-se importante, esticava os seus ramos verdes, com muita delicadeza para que neles pudessem atar as bolas de tanta beleza! A seguir, abriu-se um cestinho de verga, barrigudo, onde muito enroladinhos espreitavam fios de ouro e de prata que fizeram de pulseiras, colares e cachecóis ao pinheirinho do Pião. Que lindo que ele estava. 

Chegou a vez de o avô pir o castelo lá em cima, no sítio onde estava o papel pintado a fazer de montanhas. Depois, um bocadinho mais abaixo pôs a igreja. As casinhas foram espalhadas pelo resto do espaço. 

Por fim, o avô pôs a cabana grande em baixo, onde se pidia ver muito bem. O Presépio ia crescendo perante os olhos extasiados da menina! Numa caixinha, estavam as pratas dos bombons, muito esticadinhas com a ponta das unhas, que serviram para fazer o rio! Finalmente a última caixa, a que a menina mais esperava! 

– Avô, posso tirar os papéis? 

– Só das mais pequeninas. Eu vou-tas dando! 

Assim pelas mãos da menina passaram muitas ovelhas, tantas que ela nem as sabia contar. Eram mais do que cinco! 

– Olha Quica, esta é Nossa Senhora! 

– Eu sei, é a Mãe do Jesus! E aquele é o S. José o que tem um pau nas mãos! Onde está o Menino Jesus? 

– Está no fundo, guardado noutra caixinha. Vamos desembrulhar primeiro estes todos! 

E assim foram tomando lugar os pastores, as lavadeiras, o moleiro com o burrinho, o pobrezinho, que tinha uns olhos muito tristes, os reis magos, os camelos e as ovelhinhas que eram semeadas por toda a parte! 

– Avô! Olha a caixa do Menino Jesus! 

E do meio dos papéis, saiu a figura de que a menina mais gostava. Um bebé só com fraldinha, com os bracinhos esticados e um grande sorriso na cara! Foi posto, numa caminha de palha com muito jeitinho, para não se partir nenhum dedinho! 

– Ó Maria Luísa, chamou o Avô pela Gija! 

– Diga Pai, que quer? 

– É preciso um paninho para tapar o Menino! 

E da gaveta dos panos de renda, saiu o paninho para tapar o Menino Jesus. Só se tirava na Noite de Natal, que era quando Ele nascia! Só faltava uma coisa! A neve! O Avô trouxe farinha, e foi fazendo caminhos brancos no musgo, e depois espalhou farinha por todo o presépio, para parecer que tinha nevado! 

– Avô, O Menino Jesus vai-me trazer presentes? 

– Portaste-te bem? Se te portaste bem e vieres todos os dias cantar ao Menino Jesus, de certeza que Ele não se vai esquecer de ti! 

Então, a menina ali ficava, a cantar a canção de natal que melhor sabia! 

Ó meu Menino Jesus Ó meu Menino tão belo Só Tu quiseste nascer Na noite do caramelo! * Entrai pastores entrai Por este portal sagrado Vinde adorar o Menino Numas palhinhas deitado * Gló-ó-ó-ó-ó ó-ó ó Ó- ó- ó- ria In Excelsis Deo. 

Esta é a memória mais doce que guardo do meu natal de criança. Desde então, todos os anos, no dia 8 de Dezembro, faço o presépio, primeiro com os filhos, e agora com a minha neta, com o coração cheio de ternura e de emoção, embrulhados em papel de seda, com todo o cuidado, para que nada se parta e possa perdurar na memória de todos com quem convivo. 

Este foi o primeiro ano em que não pus musgo no presépio. 

Está um Presépio mais citadino mas nem por isso deixa de estar recheado da emoção das recordações de natal de menina. As pessoas vão desaparecendo aos poucos, mas continuam guardadas no meu coração e é para elas que vai o meu agradecimento pir terem construido comigo estas memórias tão doces que revivo todos os anos nesta altura. Um beijinho para o céu. Amo-vos a todos!

Vim aqui deixar o meu voto de um Santo Natal para todos os membros do grupo. Construam memórias boas com as vossas famílias, e que o Menino Jesus vos deixe no sapatinho muita saúde, paz e esperança no retorno de dias mais serenos, onde sejam possíveis abraços e beijos sem fim. 

Créditos Imagem:

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