15 Dez. 2025
Estive a reler a última crónica que Clara Pinto Correia escreveu para o site Página Um onde fala do AVC com que foi surpreendida no Verão e do qual vou transcrever algumas partes. Talvez assim se compreenda melhor uma morte ‘quase’ anunciada pela própria quando descreve o seu AVC.
Para quem quiser saber um pouco mais dos pensamentos e da escrita de Clara Pinto Correia sugiro que leiam as mais de 70 crónicas que deu à estampa para o site Página UM. Porque vale a pena reler e ler e reler. Clara foi única até ao fim…
“Porque tive um AVC no fim do Verão. E ninguém nos avisa desta consequência colateral, mas depois a pessoa anda estúpida durante muito tempo. Só que, como não nos dizem nada quando nos dão alta, não vamos dali preparados para vivermos com o cérebro a meio-gás. Eu, por exemplo, fui directamente do hospital para a praia com autorização médica. E acreditava mesmo que aquelas duas semanas enevoadas se tinham esfumado completamente. Por que é que não havia de acreditar? Os AVCs não são a minha área de especialidade, e não houve uma única pessoa que me dissesse que, depois das crises agudas, deixam atrás de si um rasto que pode durar meses.”
“Estou em Estremoz há cinco anos, e nunca fiz férias. Acima de tudo, tinha um desespero de me atirar mar adentro e me deixar ficar lá durante imenso, imenso tempo, para depois me oferecer ao sol da praia como um lagarto, os dedos enfiados na areia e o pensamento inebriado de sal e iodo. Desta vez é que foi a grande desforra: duas grandes amigas, uma com casa no Burgau e outra na Meia-Praia, convidaram-me ao mesmo tempo. Aquilo, assim, dava para tirar mais de uma semana inteira. Que maravilha.”
“Ou seja, teria dado, e teria sido uma maravilha, se não fosse o AVC. Assim, foram três dias de praia e cinco dias de hospital.”
“Por sorte, tive o AVC mesmo em frente da minha amiga da Meia-Praia, que me arrancou da cama ao meio-dia estranhando tanto silêncio, tentou dar-me café e eu deixei logo cair a chávena que se partiu sonoramente no chão de azulejo e me manchou toda, e pronto.”
“Hoje horroriza-me pensar que aquilo me podia ter dado sem ninguém notar. Este tipo de acidente é um assaltante extremamente dissimulado. Se me desse à noite em casa, o Sebastião pensaria que eu estava a dormir e não daria nenhum alarme. Quando desse já seria tarde demais. Até no expresso Estremoz-Lagos as pessoas pensariam que eu estava a dormir. Quando um condutor me abanasse no fim da linha também já era tarde demais.”
Esta +e a minha singela homenagem a uma mulher que nos deu tanto.