O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, foi finalmente aprovado pelos Estados‑membros no dia 9 deste mês e vai ser assinado no proximo dia 17 em Assunção, no Paraguai. Após 25 anos de negociações, representa o maior pacto comercial alguma vez concluído pela UE, abrangendo um mercado combinado de mais de 700 milhões de consumidores.
A sua relevância ultrapassa a esfera económica: trata‑se de um movimento estratégico num contexto global marcado pela crescente influência dos BRICS e pela competição entre grandes potências, especialmente após as últimas mexidas geopolíticas no Atlântico.
O que está em jogo no acordo UE–Mercosul
O pacto prevê a eliminação de mais de 90% das tarifas sobre exportações europeias e de cerca de 92% das tarifas sobre exportações do Mercosul ao longo de 10 a 15 anos.
Entre os principais pontos está a redução de tarifas para automóveis, produtos farmacêuticos, químicos e maquinaria europeia, o aumento de quotas para produtos agrícolas sensíveis, como carne bovina, aves e açúcar, abertura de mercados para vinhos, queijos e bebidas espirituosas europeias, com tarifas atualmente elevadas (27% a 35%) e compromissos reforçados em sustentabilidade, ajustados em 2024 para responder às exigências europeias e às preocupações ambientais.
O acordo é visto pela UE como um sinal de compromisso com o multilateralismo e uma resposta à crescente competição geoeconómica global.
Portugal: entusiasmo estratégico e oportunidade económica
Portugal tem sido um dos Estados‑membros mais favoráveis ao acordo, destacando‑se pela sua visão de oportunidade económica e pela ligação histórica ao espaço lusófono e sul‑americano.
O Governo português saudou a aprovação do acordo, classificando-o como “substantivo e mutuamente benéfico”. A posição portuguesa contrasta com a oposição de países como França, Polónia, Áustria, Hungria e Irlanda, que votaram contra devido a preocupações agrícolas e ambientais.
A Associação Empresarial de Portugal, consider que o acordo “trará mais vantagens do que desvantagens”, sobretudo devido à posição geográfica estratégica de Portugal como porta atlântica da UE, aos laços históricos com Brasil e outros países do Mercosul e à baixa base exportadora actual, que permite grande margem de crescimento.
A Comissão Europeia confirma que o acordo facilitará a vida das empresas portuguesas, sobretudo PME, ao reduzir custos e simplificar procedimentos.
Os Setores portugueses mais beneficiados serão a Indústria e maquinaria, com um acesso mais competitivo a mercados até agora altamente protegidos., o sector Agroalimentar, nomeadamente e exportação de vinhos, azeite, queijos e conservas com tarifas reduzidas, assim como os Serviços, que ganharão maior facilidade de entrada em mercados sul‑americanos, tradicionalmente fechados a operadores estrangeiros.
A assinatura do acordo ocorre num momento em que os BRICS, agora ampliados e com crescente influência global, procuram consolidar alianças económicas alternativas ao eixo euro‑atlântico.
Mercosul entre dois mundos
O Mercosul tem aprofundado relações com países BRICS, sobretudo China e Rússia, que são hoje parceiros comerciais centrais para Brasil e Argentina.
A UE, ao avançar com este acordo, procura reduzir a dependência de mercados dominados pela China, especialmente em matérias‑primas críticas, reforçar a presença europeia na América do Sul, região onde a influência chinesa tem crescido exponencialmente, demonstrar que grandes acordos multilaterais continuam possíveis, mesmo num mundo fragmentado.
Portugal como ponte entre blocos
Portugal tem defendido que o acordo UE–Mercosul pode funcionar como contrapeso à crescente polarização global, reforçando a ligação atlântica, a cooperação com o Brasil, país-chave nos BRICS, e a capacidade da UE de dialogar com economias emergentes.
Apesar da aprovação, o acordo enfrenta forte contestação de agricultores europeus, que o consideram “fundamentalmente desequilibrado” e prejudicial para a agricultura familiar europeia.
Países como França e Polónia argumentam que as normas ambientais do Mercosul são insuficientes, a entrada de carne bovina e aves a preços mais baixos pode desestabilizar mercados internos e que o acordo favorece a indústria europeia em detrimento do setor agrícola.
Portugal, embora atento às preocupações agrícolas, considera que os mecanismos de salvaguarda aprovados pela UE são suficientes para mitigar riscos.
Um acordo que redefine o tabuleiro geopolítico
O acordo UE–Mercosul não é apenas um pacto comercial: é uma afirmação estratégica num mundo em que os BRICS ganham peso e a competição entre blocos se intensifica.
Portugal vê nele uma oportunidade histórica para reforçar a sua posição atlântica, expandir exportações e aprofundar relações com o Brasil e a América do Sul.
Se a ratificação final avançar sem novos bloqueios, Portugal poderá emergir como um dos maiores beneficiários europeus — e como ponte diplomática entre a UE e o mundo emergente.